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Lucro cai e incertezas pairam sobre a agricultura em 2022

Legenda: Máquinas atuam em propriedade rural com soja no Mato Grosso - Ascom/Aprosoja
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MAQUINAS SOJA – Ascom Aprosoja

 

Por Mauro Zafalon

 Custos subiram, e menor renda no campo respinga sobre toda a economia.

A bonança dos anos recentes da agropecuária está acabando. Um conjunto de incertezas —que vão desde a dúvida de quando e onde será a próxima seca até fatores ainda mais alheios ao setor, como a guerra entre a Ucrânia e a Rússia— dá à atividade um risco ainda maior.

Embora tenham trazido bons preços à agricultura, esses fatores fizeram disparar os custos, restringindo as margens de lucro no campo.

Este ano será um divisor de águas. Em face dos preços altos das commodities, o setor ainda vai movimentar muito dinheiro, mas o saldo final na ponta do lápis não será equivalente ao de anos anteriores.

Dentro do próprio Brasil, já é evidente uma disparidade entre as principais regiões agrícolas. Após duas quebras de safra e baixa produtividade, boa parte dos produtores do Sul estão no vermelho. Os olhares agora se voltam para a safrinha de milho, que está sendo semeada.

Já no Centro-Oeste, que é a principal região produtora do país, a soja foi recorde. Os produtores obtiveram bons preços, embora tenham tido custos de produção maiores.

Os agricultores das diversas regiões do país, porém, entram na safra 2022/2023 —a que será semeada no segundo semestre— com custos elevados e que não foram vistos na última década.

Na avaliação do Ministério da Agricultura, neste ano os produtores do Sul vão deter apenas 23% do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária). Em 2021, esse percentual era de 29%.

Já a participação dos produtores do Sudeste sobe de 23% para 27%, e a dos do Centro-Oeste, de 33% para 34%.

O VBP representa o volume produzido e os preços recebidos dentro da porteira.

Embora a demanda agrícola esteja aquecida, o setor está refletindo os desarranjos econômicos mundiais.

Quando a economia começava a assimilar os efeitos da pandemia de Covid-19, que reduziu a oferta de insumos e elevou preços, eclodiu a guerra na Ucrânia, com efeitos ainda mais adversos para os produtores brasileiros.

Agora, além de lidar com questões internas, como renegociação de dívidas, seguro difícil, descapitalização, aumento de custos e dificuldades de acesso ao crédito, o setor agrícola passa a depender, de forma mais intensa, de fatores externos.

O principal deles é a dificuldade na obtenção de fertilizantes, uma vez que Rússia e Belarus são responsáveis por 28% desses insumos importados pelo Brasil.

As incertezas dos produtores são relevantes: eles não sabem quando e a que preço o adubo vai chegar para o plantio do segundo semestre.

Com tamanha dependência externa de insumos, inclusive de agroquímicos e de máquinas agrícolas, os produtores nacionais devem reduzir investimentos e podem perder competitividade no mercado externo.

A avaliação da produção brasileira e da renda dos agricultores passa, em boa parte, pelo cultivo da soja, que ocupa 41 milhões de hectares de plantio no país.

O custo médio de produção do grão em Mato Grosso, feito com base na antecipação das compras mensais dos insumos pelos produtores, subiu para R$ 4.704 por hectare na safra 2022/2023.

Esse valor representa uma evolução de 62% em relação à média de 2021/2022, de acordo com dados do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária).

Até fevereiro, 56% dos insumos que serão utilizados no estado já haviam sido adquiridos, mas a um preço bem superior ao de um ano atrás.

Os produtores que ainda não adquiriram os insumos vão despender bem mais a partir de agora devido aos efeitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Haverá um forte estreitamento de margens.

Considerados os custos médios dos macronutrientes, a evolução dos preços dos fertilizantes, do ano passado para este, foi de 111%. Alguns produtos específicos tiveram alta bem mais acentuada, segundo o Imea.

Os números da soja, a commodity de maior liquidez e de maior importância para o país, mostram quanto uma redução de margens no campo pode significar para a economia como um todo.

A área, que, há uma década, era de apenas 25 milhões de hectares, vem crescendo 5,1% ao ano, o que se explica pela boa liquidez do setor.

Há três anos, o Valor Bruto da Produção da soja era de R$ 230 bilhões. No ano passado, atingiu R$ 354 bilhões, uma alta de 54%. Nesse mesmo período, o milho, outra cultura importante, teve evolução de 108%.

Soja e milho somam 59% do valor da produção nacional. Os 41% restantes dividem-se entre as outras 22 culturas acompanhadas pelo Ministério da Agricultura.

Um impacto negativo nas duas principais culturas deixa de irrigar boa parte da economia nacional. Para cada real que a agricultura perde, as cidades deixam de movimentar R$ 3,20.

Cálculos da consultoria MacroSector indicam que as receitas nominais da agricultura, que vinham em um crescente nos últimos anos, subiram 63% no ano passado. A evolução deste ano, no entanto, será bem menor, segundo os analistas.

Os efeitos das políticas externas em tempos de guerra também influenciam o agronegócio brasileiro, uma vez que o setor é altamente dependente do exterior, tanto nas vendas de produtos como nas compras de insumos.

A recente elevação mundial de preços dos alimentos e a consequente alta da inflação fazem os países adotarem medidas restritivas na economia.

O Fed (Banco Central dos Estados Unidos) já iniciou o processo de elevação das taxas de juros e sinaliza que novas altas virão pela frente.

No Brasil, a estimativa do mercado é que a Selic feche o ano em 13%.

A desaceleração das economias traz restrições no emprego e na atividade econômica, reduzindo renda. Alimento é essencial, mas a alta de preços coloca um percentual maior da população mundial na linha da pobreza.

As mudanças econômicas trazem incertezas sobre os preços dos produtos agrícolas. A alta do dólar norte-americano deprime os preços internacionais das commodities.

Além disso, juros elevados atraem fundos de investimento —que, atuantes no mercado de commodities, dão sustentação às negociações em patamares elevados. Com possibilidades de rendimento maior em outros setores, esses fundos deixam o agrícola, que sofre, assim, depressão de preços.

 Tudo isso gera incerteza em um segmento que planta com custos muito elevados, mas, mesmo com a demanda existente, não tem garantia de preços das commodities.

Some-se a essas condições o problema de concentração de mercado do Brasil. O país vende muito para poucos e compra muito de poucos. Pelo menos 70% da soja brasileira exportada vai para a China, que acaba de anunciar uma redução nas expectativas de crescimento do seu PIB.

Já 38% dos fertilizantes adquiridos vêm de apenas dois países. Um deles, a Rússia, está envolvido em uma guerra e, por dificuldades internas e por logística, tem gargalos no fornecimento desses insumos.
A invasão russa na Ucrânia elevou também o patamar dos preços de combustíveis.

Componente importante na produção agrícola, principalmente no setor de cana-de-açúcar, o petróleo é mais um fator de pressão nos custos dos produtores projetados para este ano. Além disso, essa commodity faz parte da formação dos preços dos fertilizantes.

Mais que em anos recentes, hoje plantar tornou-se uma atividade de risco (Folha de S.Paulo, 29/3/22)

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